Nove horas da
madrugada me aparece, esbaforido, mas eufórico, com uma página solta do Obbá
Coema na mão, quase gritando, o Crentinho, aquele que acredita em tudo que seu
mestre diz.
- “Cê viu, Cê viu,
Cê viu????”.
- Vi o que,
Crentinho?!
Quase sem fôlego,
vermelho que nem um peru, parecendo ter acertado os seis números da Mega-Sena.
Nada disso. Era uma pesquisa eleitoral publicada como matéria paga em meia
página do Obbá Coema, que trazia o seu candidato disparado na frente.
- “A maior rádio
do mundo fez uma pesquisa, tá aqui, ó!”. “Tatá tá lá”. “Veja bem, se somar os
votos dos adversários num chega nem na metade dos dele”. “Acho que num precisa nem
de eleição”. “Depois dessa, tá tudo resolvido!”. “O governo pudia cancelar a
eleição e economizar dinheiro”. “Viu só, pesquisaram todos os bairros de
Passos; ouviram todo povo e o resultado tá aí”.
- Calma lá,
Crentinho. As coisas não são bem assim, como você está imaginando, não. A
pesquisa é como uma foto, mostra um determinado momento, portanto você precisa
de mais pesquisas para ver a tendência e ela não ouve todo o mundo, somente uma
pequena parte da população e ela tem também uma margem de erro, que no caso é
grande, quase do tamanho dos votos nulos.
- “Num vem, não,
com palavriado complicado”. “Tatá me disse que a pesquisa não tem erro, porque
ela... esqueci a palavra... ela faz que nem o espelho faz quando a gente fica
na frente dele...fica igualzinho...”.
- Sei. Reflete.
- “Isso mesmo,
ela reflete a vontade do povo, então é a mesma coisa que perguntar pro povo
todo e, pronto, tá tudo resolvido”.
Neste ponto
desisti. Calei-me pra evitar prosseguir o papo e perder tempo com quem já está
convencido e só quer convencer.
- “Aí papudo, te
embuchei, hein; ficou caladinho, né?!”.
Nesse momento ele
passou dos limites, obrigando-me a dizer o que não queria.
- Olha aqui,
Crentinho; Pra se fazer uma pesquisa bem feita, o pesquisador precisa
informações precisas do objeto pesquisado, no caso a população e a cidade. Diz
a pesquisa aí que “foram pesquisados todos os bairros da cidade” e em seguida
os enumera, num total de 13, quando aqui tem 23 bairros, definidos por lei.
Além disso, fizeram uma salada de bairros com loteamentos, mostrando total desconhecimento
da distribuição da população pelos diversos bairros da cidade.
- Pra se ter uma
ideia de como a turma está por fora, Crentinho, no “bairro 2” consideraram dois
bairros legais ou oficiais (Penha e COHAB) e cinco loteamentos (Jardins
Planalto, Satélite, Estrelas, Primavera e Maria Augusta); no “bairro 3”, dois
bairros (Coimbras e Califórnia) e três loteamentos (Jardins Panorama, Helaine e
N. S. de Fátima), e se esqueceram dos bairros Aeroporto, Universitário, com
pequena população, reconheço, mas existentes, e João Paulo II.
- Outra coisa, Crentinho,
a população desses “bairros” inventados foi chutada, porque o IBGE só informa a
população dos bairros oficiais, aprovados em lei.
- Assim, Dr.
Crentinho, num trabalho em que se desconhecem dados elementares e fundamentais
para uma pesquisa de opinião, obtidos em documentos públicos de fácil acesso,
como a legislação do município, dá pra imaginar a precisão dos resultados da
tal pesquisa e, pior ainda, a intenção de quem a encomendou.
- Finalizando, por
que sobre esse assunto não quero mais papo, bota sua barbicha de molho, que
surpresas podem vir por aí.
E mais nada foi
dito e, também, o Crentinho não me perguntou.

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